
Publicado por Connectarch
Duração 9 MIN
Data de publicação 29/12/2022
São Paulo tem Museu de Arte de Rua
Ao longo de seus 40 anos de existência, o grafite, nascido nas ruas periféricas, cresceu, ganhou telas e fez grandes nomes no segmento
Nova York, 1970. Impulsionados pelas injustiças sociais, jovens ecoam seus gritos nos muros da cidade, denunciando e questionando a realidade social. Nascido na periferia urbana, o grafite, uma forma de expressão artística inserida em espaços públicos, cresceu, angariou adeptos, e ganhou notoriedade e milhares de muros com o passar dos anos. Hoje, como arte que é, o grafite mostra sua força no mundo inteiro por meio de artistas cujos nomes são reconhecidos internacionalmente como Os Gêmeos, Nina Pandolfo e Kobra.
O período era da contracultura – uma forma de cultura de insurreição que se opunha aos padrões, às tradições, em um movimento intelectual e político – onde o grafite encontra em suas bases a força de que precisava para existir. A arte de rua envolve cada vez mais pessoas e surgem nomes que ainda hoje são referências como o nova-iorquino Jean Michel-Basquiat cujas obras chegam às cifras de R$ 350 milhões. Com o passar dos anos, o grafite se impôs de diferentes formas, seja com desenhos, seja por cores ou preto e branco, seja pelas peculiares letras que identificam cada artista. Além disso, a arte pode ser conferida em telas – alguns artistas são representados por galerias de arte – e até em mostras que reúnem vários nomes e suas diferentes criações.
Em São Paulo, um projeto conhecido por MAR 360 – Museu de Arte de Rua – tem promovido o grafite em lugares antes esquecidos, sem qualquer tipo de uso e que deixavam obsoletos alguns cantos da cidade: as empenas dos prédios. MAR 360 é uma iniciativa da prefeitura de São Paulo em parceria com as secretarias de cultura, Subprefeituras e Educação que tem como objetivo aprimorar a vocação da cidade para a produção de arte urbana.
Entre as centenas de artistas que compõem o MAR 360, Paulo Cesar, mais conhecido como Speto, é artista plástico, ilustrador e um dos principais nomes do grafite no Brasil, assina uma obra em uma das várias empenas cegas de São Paulo. Inspirada em um dos nomes mais importantes da música brasileira, João Gilberto, que faleceu aos 88 anos em julho de 2021, a obra criada por Speto é uma singela homenagem ao ‘pai da bossa nova’, como era considerado João. Segundo conta o artista, a decisão de homenagear o músico se deu, entre outros motivos, porque ainda não havia nenhuma referência à sua memória, que também era cantor e compositor. “Até esse momento ainda não haviam feito homenagens para ele e, hoje, o grafite na empena cega localizada ao lado do mercadão na região Central de São Paulo é uma obra super fotografada e postada nas redes sociais”, pontua o artista. “Ficou uma homenagem permanente”, completa Speto ao comentar sobre o desafio de eternizar um ato tão marcante na vida de um artista, principalmente da grandeza de João. “Um violonista quando acaba uma música, abafa as cordas e, nessa obra, retratei esse momento, como se ele estivesse terminando a vida assim”, finaliza Speto.

Bienal de Graffitti Fine Art
Também em São Paulo, um evento voltado para a propagação do grafite, a Bienal de Graffiti Fine Art, teve sua 5ª edição este ano – agosto de 2022 – e aconteceu na galeria Marta Traba, parte do Memorial da América Latina em São Paulo, um marco da cidade assinado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Com uma área de mil metros quadrados, é preciso ressaltar que o projeto arquitetônico da galeria, por si só, já é uma obra de arte, pois uma única coluna central suporta toda a construção, permitindo ao visitante, desde a entrada, uma visão de todo o acervo exposto. Composta por duas salas, a Galeria Marta Traba recebeu uma mostra, onde 61 artistas, sendo sete internacionais, exibiram suas obras, entre telas, fotografias e esculturas, em uma mescla do estilo de vida da street art com tecnologias e cultura, sob a curadoria do artista Binho Ribeiro, outro grande nome do grafite brasileiro.
Acerca dessa edição que também pontuou 10 anos do evento, Binho, cuja história no grafite vem desde 1984, falou sobre o trabalho que realiza com tantos jovens talentos, apresentados a cada Bienal, já que novos nomes são selecionados e nunca se repetem. “Não é fácil. Artista não é fácil, jovem não é fácil, talento não é fácil, mas acho que minha parte como curador é orquestrar esse talento, é lapidar essa joia muitas vezes bruta e na Bienal eu tenho essa oportunidade. Tenho artistas que se permitem esse processo de crítica e de observação que espero que seja bacana para a carreira deles. Há outros que já estão muito prontos e, às vezes, já estão blindados, porém, também conseguem escutar e a gente consegue fazer uma afinação no coletivo e isso é muito bacana”, celebra Ribeiro.
A Bienal de Graffiti Fine Art reuniu representantes de vários estados do país, e de outros também, presentes com suas experiências, técnicas e, mais que isso, que trouxeram e exibiram sua cultura e mostraram suas origens. Uma oportunidade, segundo o curador, de compartilhar conhecimento. “Pessoas de diferentes culturas e classes sociais visitam e levam essa experiência para outras pessoas. Entendo que a Graffiti Fine Art é uma tentativa, ou melhor, é um rompimento de barreiras que existem ainda no universo da arte contemporânea e acho que esses grandes curadores que participam de grandes projetos também podem nos olhar, olhar todos esses novos talentos de uma forma diferenciada”, deseja Binho Ribeiro.

Por Jucelini Vilela
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