
Publicado por Connectarch
Duração 13 MIN
Data de publicação 28/04/2023
Retrofit: Revitalizando o passado
Revitalização de edifícios no Centro Histórico de São Paulo transforma construções, o entorno e gera novas possibilidades de moradia
Já imaginou passear pela São Paulo antiga, dos anos 1960 e 1970, quando a grande maioria dos edifícios recém-inaugurados, estavam novinhos em folha? Talvez, um dia, seja possível. Não se trata de uma viagem no tempo, mas um tipo de retorno visual ao passado graças à técnica de retrofit. Empregada por algumas incorporadoras e escritórios de arquitetura, a técnica que consiste em restaurar algo – de equipamentos a edifícios – considerados ultrapassados ou que estejam degradados, tem trazido de volta à vida alguns empreendimentos deteriorados ao longo dos anos. De origem inglesa, a palavra retrofit seria algo como ‘atualizar o antigo’, e em resumo, seria um processo de intervenção em instalações antigas na busca pela modernização de determinado ambiente e espaço, deixando-o mais seguro e apto à reocupação.
Seja por abandono no qual as intempéries agem livremente ou por terem se tornado ‘velhos’ por ficarem abandonados e, consequentemente ‘parados’ no tempo – muitas vezes são as duas coisas juntas – o retrofit em edifícios no Centro Histórico de São Paulo tem se mostrado eficaz na recuperação de edifícios outrora relegados. É o caso do, à época, Irradiação que mesmo tombado pelo Condephaat – órgão subordinado à Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, que tem entre seus principais objetivos a preservação de bens de valor histórico – estava descuidado. Assinado nos anos 1940 pelo arquiteto francês Jacques Pilon, o edifício passou por um processo de renovação que teve início em novembro de 2017 e foi entregue em abril de 2019. A partir daí, mudou de nome e tipo: passou a se chamar Residence Jacques Pilon e agora abriga apartamentos residenciais.
O engenheiro responsável pelo retrofit, Armando Byron Wharton, conta que com o passar dos anos e a migração de empresas do Centro da cidade para outras áreas, o Irradiação, que foi pensado para ser estritamente comercial – eram cerca de 22 unidades por andar com dois banheiros coletivos – passou a ter muitas salas vazias e, a partir dessa ‘dura’ realidade surgiu a proposta para a revitalização. “Com a grande desocupação nos imóveis, o dono optou pelo retrofit para torná-lo residencial. Assim, foram criados 27 apartamentos por andar cada um com banheiro independente. Não houve quebra de paredes para criar os ‘studios’, ao contrário, precisou levantar novas, para que novos ambientes surgissem.” Localizado nas esquinas da rua Brigadeiro Tobias com a avenida Senador Queirós, o Residence Jacques Pilon possui unidades suítes que partem de 20 até 41 metros quadrados, já equipados e mobiliados. Há, ainda, espaço fitness, lounge e terraço lounge e vai além: o edifício conta com moderno sistema de ar-condicionado, janelas antirruído, pintura antipichação, fechaduras eletrônicas, sala de reunião, lavanderia coletiva e lazer completo.

Essa transformação só foi possível graças ao savoir faire da TPA Incorporadora, empresa que existe desde 1974 e é dirigida hoje por Mauro Teixeira, filho do fundador, José Roberto Teixeira Pinto. Para ele, que se orgulha de que o Residence Jacques Pilon tenha vencido o Prêmio Master Imobiliário 2020 na categoria Retrofit, a revitalização do edifício no Centro da maior capital da América Latina é fundamental para o desenvolvimento da região. “O retrofit é sustentável não apenas por conta da recuperação em si, mas também, e principalmente, pelo aproveitamento da infraestrutura do entorno”, declara o diretor da TPA, Mauro Teixeira.

Camille Bianchi, à frente do escritório Readymake, faz coro à fala de Mauro. “Para mim, o retrofit é o melhor mercado que existe em São Paulo, pois possui custo mínimo e apresenta efeito fantástico e imediato acerca da percepção urbana.” Responsável pela revitalização do Marajó, um edifício emblemático na capital paulista e assim como o Jacques Pilon inaugurado nos anos 1940, a arquiteta se baseia, segundo ela mesma, na estética e estilos empregados aos empreendimentos, pois há “grande quantidade de edifícios muito bons na região central e com grandes diferenciais como pé direito alto e quartos espaçosos, difíceis de encontrar em projetos novos. Uma vez que se reforma o edifício, este torna-se um atrativo e as pessoas gostam do padrão.” Com sede em Paris e em São Paulo, o Readymake já assinou outros projetos de retrofit, como o edifício Juliana Torres, também no Centro da capital. Em ambos, a arquiteta conta que a preservação da ‘memória afetiva’ do edifício a ser renovado é sempre um ponto de atenção. “Usamos as qualidades iniciais, preservamos pisos, corrimãos e janelas com ferragens da época. A nova serralheria foi inspirada no que já existia e usamos muito latão, típico dos anos 1950. Usamos latão para juntas e puxadores, explorando a nobreza do material.”

O Marajó, que tem vista para o Elevado Costa e Silva, mais conhecido como Minhocão, possui onze andares e teve fachada e áreas comuns totalmente revitalizadas. Apenas os imóveis do quinto ao décimo primeiro andar foram ‘retrofitados’; além de um projeto de interiores na cobertura, levam a assinatura do escritório parisiense. Vale citar que o retrofit no Marajó, que teve um ano de duração – começou e terminou em 2018 – é uma iniciativa privada e, segundo Camille, um projeto provocante. “Foi bastante desafiador, pois o mesmo estava bem degradado, mas ainda assim, mexemos na iluminação, plantamos árvores ao redor, pois acreditamos que restaurar é entrar com diálogo mais contemporâneo, sempre de acordo com a realidade local e pensando no bem-estar de todos”, finaliza Camille Bianchi.

A indústria a favor do retrofit
Saindo do Centro de São Paulo, mas ainda na capital, outro exemplo que se beneficiou, e muito, da técnica do retrofit foi o edifício Paranaguá. Localizado na avenida Faria Lima, uma das vias financeiras mais importantes da cidade, o empreendimento recebeu a técnica aliada à solução Fachada Ventilada da Eliane Tec. Com sistemas desenvolvidos a fim de atender individualmente cada necessidade, sem abrir mão da estética, as fachadas ventiladas são funcionais e sustentáveis, pois não geram resíduos em sua instalação e, ainda, proporcionam resfriamento ao prédio de forma natural.
Interligadas por meio de um sistema instalado ao edifício, as placas ficam afastadas da base, o que favorece a circulação de ar de baixo para cima. Assim, o ar frio entra por baixo e o quente sai por cima, o que oferece maior conforto térmico ao prédio e economiza mais de 30% no consumo de energia. Outro destaque do serviço, é a manutenção, já que seus painéis podem ser substituídos sem a necessidade de quebras. No caso do Paranaguá, foi utilizado o Munari Cimento com placas de formato 59x118,2cm. Para revestir todo o edifício foram necessários o total de 1.040 metros quadrados do produto, enviado ao local já com furos para a acoplagem no sistema de fixação. Os cortes também foram feitos ainda na fábrica, o que minimizou rejeitos na obra onde ocorreu apenas a montagem.

É Lei
A Prefeitura de São Paulo sancionou em 21/07/2021 a Lei nº 17.576/2021 que propõe incentivos fiscais para retrofit de edifícios antigos da região central. O “Programa Requalifica Centro” visa impulsionar a requalificação e a transformação de edifícios para o uso habitacional, além de atrair investimentos à região, por meio de incentivos fiscais.
A concessão de incentivos fiscais é apenas a primeira etapa desse programa de retrofit. Após a sanção da lei, a Prefeitura trabalhará na edição de um decreto para desburocratizar e agilizar o processo de aprovação desses projetos. O Município também elaborará parcerias junto à sociedade civil para incentivar a requalificação de edifícios antigos. O Programa Requalifica Centro teve sua lei regulamentada pelo decreto lei nº 61.311/2022 em 25/05/2022. Com a regulamentação, fica instituído o Regime Especial de Atendimento Prioritário (REAP) para os processos de requalificação relativos ao Programa. Na prática, isso significa que eles terão identificação própria e tramitação prioritária para a obtenção de alvarás.
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