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Publicado por Connectarch

Duração 10 MIN

Data de publicação 22/09/2022

Ressignificar é preciso

Novos caminhos surgem na longa estrada que ainda se precisa trilhar para salvar o planeta

Por Jucelini Vilela

A palavra de ordem é ressignificar. O termo, que vai além da sustentabilidade, visa dar novos usos àquilo que já não serve mais e que, impreterivelmente, seria descartado. E, com o atual cenário de aquecimento global, evitar o descarte desnecessário se faz urgente e, mais que isso, é uma questão de responsabilidade ambiental e humanitária. Contudo, as novas gerações estão de olho em marcas social e ambientalmente engajadas e, com tantos canais disponíveis atualmente, suas vozes se fazem uníssonas em reivindicações e até deixam de adquirir seus produtos.

Algumas marcas já perceberam – ou porque são atentas ou porque viram seus números caírem – e saíram na frente, trazendo para suas produções produtos descartados que são em sua maioria, irresponsavelmente, abandonados no meio ambiente. Entre os itens, as garrafas pet são as mais poluentes e vão parar direto nos oceanos. Segundo dados de uma pesquisa mundial publicada em 10 de junho de 2021 na revista científica Nature Sustainability, plástico de garrafas, embalagens e sacolas já são responsáveis por 80% do lixo nos rios, mares e oceanos.

Tijolo de plástico

Incipiente e ainda com certa timidez, alguns setores têm voltado as atenções para o assunto e passaram a implementar métodos e práticas mais sustentáveis em suas indústrias, ofertando ao mercado produtos menos poluentes ou a partir de reciclados. Uma startup norte-americana enxergou uma possibilidade para o setor de construção civil e passou a produzir tijolos a partir de plásticos retirados dos oceanos. O responsável é o engenheiro neozelandês Peter Lewis, à frente da ByFusion, que desenvolveu uma tecnologia na qual transforma plástico em blocos – uma plataforma modular comprime a ‘matéria-prima’ e a transforma em blocos, que se encaixam como legos. Segundo a empresa, a fabricação do tijolo ecológico emite 95% menos gás carbônico em relação ao convencional, e o ‘Replast’, como foi batizado, garante qualidade e durabilidade e pode ser usado em projetos diversos, como casas e edifícios.

Reprodução Instagram @byfusion

Eficiência ecológica

Revestimentos ecológicos também já são uma realidade no setor. A Decortiles tem em seu portfólio a série Eco, que traz o selo Produto Sustentável pelo processo de fabricação ecoeficiente. A fabricação tem reutilização de 70% de massa com o objetivo de reduzir o impacto ambiental e reforçar o compromisso da marca com a busca pela excelência na fabricação ecoeficiente. Além disso, o Eco reutiliza 90% da água que é reaproveitada no próprio processo de produção. Esse produto também está em conformidade com a TÜV Nord Brasil Avaliações da Qualidade, que é um órgão certificador da área.

Outro produto, desta vez, da Eliane, é o Sílex, um Tecxtone – categoria de altíssima performance para usos extremos. Sílex é um porcelanato polido que pode ser usado em ambientes de alto tráfego, já que é feito de massa única (colorbody), o que significa que, se algo acontecer com a superfície, a peça pode passar por um repolimento especializado para recuperar o brilho sem sofrer na estética, pois todo seu ‘corpo’ é feito com a mesma massa (fragmentos de cerâmicas de diferentes tamanhos). Vem daí seu apelo sustentável. Sílex é, igualmente, ideal para porcelanataria, pois possui cortes e cantos perfeitos, com a mesma aparência. O nome Sílex vem dessa pedra que tem como característica a alta dureza e resistência.

No pico da onda

A moda também tem se atentado para as questões ambientais e algumas marcas têm implementado tecnologias de ponta para o reaproveitamento de produtos descartados na confecção de peças de vestuário. Vale ressaltar que, além das marcas, personalidades mais engajadas têm, literalmente, vestido essa ‘camisa’. É o caso do campeão mundial de surfe, Kelly Slater que, para chamar a atenção mundial para o problema do descarte de lixo nos mares, lançou uma coleção de roupas, batizada de Evolution Series, composta por jaquetas, calças e camisetas, todas feitas 100% a partir de redes de pesca retiradas dos oceanos. Em parceria com a marca italiana Aquafil, o tecido, chamado de Econyl, é a base para as confecções e surge a partir da regeneração do nylon, que pode ser reciclado e reutilizado inúmeras vezes, sem perder qualidade. E vai virar moda! Gigantes de jeans como a Levi’s Strauss & Co, que já implementou tecnologias a fim de diminuir o consumo e a reciclagem de água nos processos de tingimento e lavanderia, passou a inserir 38% de poliamida Econyl na composição do modelo Levi’s 522 masculino.

Pisada verde

Ainda na seara da moda, os pés não podem ficar de fora. A Vert – que nasceu Veja, na Europa – uma marca de tênis com design atemporal francês, urbano e minimalista, tem conquistado a cabeça (ou melhor, os pés) de adultos e jovens mundo afora. No Brasil desde 2013, Vert (que em português significa verde) reconhecida por seu compromisso e preocupação com a natureza, utiliza algodão orgânico na confecção de tecidos e cadarços. Já as malhas são produzidas a partir da reciclagem de garrafas plásticas. Os calçados Vert utilizam 100% de matérias-primas brasileiras e são fabricados no Brasil. Sua produção por aqui já utilizou cerca de 120 toneladas de algodão – orgânico, como já mencionado –, 75 toneladas de borracha selvagem da Amazônia que é proveniente da cooperativa Chico Mendes em parceria com a WWF e o Governo do Acre, e ofertou, por meio de cooperativas, centenas de oportunidade de trabalho.

Logística reversa

Uma iniciativa muito promissora é o da logística reversa na qual o consumidor participa ativamente da preservação do meio ambiente. É simples: basta devolver a embalagem usada em um posto de coleta. Marcas como a Natura&Co, por exemplo, já aplica esse sistema em suas lojas e com um incentivo maior: a cada cinco embalagens devolvidas, o cliente ganha um novo produto de qualquer uma das marcas do grupo: Avon, Natura, The Body Shop e Aesop. Vale ressaltar que a marca já usa plástico reciclável – parte retirado do litoral brasileiro – e biodegradável em sua cadeia produtiva.