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Publicado por Connectarch

Duração 8 MIN

Data de publicação 16/11/2021

Projetos pautados pela natureza

A biomimética na arquitetura significa mais do que apenas copiar as formas presentes na natureza. Sua aplicação acontece quando os arquitetos e designers estudam as funções e estruturas de elementos naturais como animais, plantas, ecossistemas e utilizam o aprendizado para desenvolver projetos.

Eastgate Center, de Mick Pearce

Imagem: Eastgate Center. Mick Pearce

O Eastgate Center, localizado em Harare, no Zimbábue, é um edifício projetado a partir de uma observação do arquiteto Michael Pearce da estrutura de cupinzeiros africanos e seus sistemas de temperatura e circulação de ar e luz.

Considerando os mesmos sistemas de correntes de ar do interior dos cupinzeiros, o edifício não apresenta nenhum sistema de ventilação artificial como ares condicionados ou aquecedores e, ainda assim, sempre mantém sua temperatura ideal.

Para entender plenamente a estrutura do edifício, é preciso entender a estrutura do cupinzeiro, em si, que possui minúsculos furos ou cavidades em seu entorno, permitindo que o ar transite livremente, além de apresentar poços de ventilação e chaminés, para a liberação do ar quente.

O mesmo acontece no edifício Eastgate Center: os materiais utilizados (lajes de concreto e tijolos), apresentam massa térmica, ou seja, conseguem absorver o calor sem, necessariamente, alterar sua temperatura. Sua superfície apresenta extremidades como espinhos, que evitam a perda de temperatura durante a noite.

Por meio de um sistema de ventiladores de baixa potência, o ar fresco noturno de fora é puxado e dispersado pelos 7 andares do edifício. Enquanto isso, os blocos de concreto absorvem o frio, isolando o edifício e resfriando o ar circulante. Quando amanhece e a temperatura sobe, o ar quente é ventilado pelo teto e liberado pelas chaminés. Assim, a temperatura em seu interior se mantém estável e agradável, mesmo em uma região de clima super quente como a África.

Desde que abriu suas portas em 1996, o sistema de controle climático 90% natural de Mick Pearce tornou o Eastgate Center um marco global para a sustentabilidade, utilizando 35% menos energia do que outros prédios de mesma proporção.

Casa Folha, dos escritórios Mareines e Patalano

Imagem: Patalano Arquitetura.

Uma estrutura para manter a circulação do ar e o balanço da temperatura é a Casa Folha, localizada em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Esta casa de praia foi inspirada em 6 folhas de palmeira para sua cobertura.

O encaixe circular das folhas de quase 25 m de comprimento, desenvolvidas a partir de madeira laminada de eucalipto, facilita a ventilação natural provinda do litoral para o interior dos ambientes da Casa.

Dessa forma, a Casa Folha dispensa sistemas de resfriamento artificial, como ares condicionados, e economiza energia. Outro ponto interessante sobre a edificação é que a representação das folhas impede que os raios solares incidam diretamente sobre os quartos da Casa, evitando o aumento da temperatura.

O projeto, além de um design inovador, também promove a sustentabilidade. Através de um sistema de tubulação interno do telhado, a Casa consegue coletar até 60% de água da chuva, de modo a ser filtrada e reutilizada em piscinas e jardins.

Votu Hotel, por GCP Arquitetura e Urbanismo

Imagem: GCP Arquitetura e Urbanismo (Reprodução).

Outro exemplo nacional de biomimética aplicada na arquitetura é o Votu Hotel. Localizado na Praia dos Algodões, na Península de Maraú, no Sul da Bahia.

O principal desafio, durante o desenvolvimento do hotel, foram as questões climáticas da região, que é naturalmente quente. O escritório GCP precisou pensar em uma solução que não impactasse negativamente o ecossistema local.

A solução foi se inspirar na natureza! Para treinar a equipe de arquitetos da GCP, a bióloga e especialista em Biomimética, Alessandra Araujo, foi convidada para o projeto.

A interdisciplinaridade permitiu esse resultado: o projeto foi inspirado no conforto térmico das tocas dos Cães de Pradaria, esta espécie desenvolve suas tocas enterradas no solo, com longos tubos subterrâneos que permitem a entrada e saída de ar através das diferenças de pressão atmosférica.

Além disso, outras inspirações como a capacidade de auto sombreamento dos cactos e as trocas de calor do bico dos tucanos também foram utilizadas para a aplicação biomimética.

Estádio Nacional de Pequim, pelo escritório Herzog & de Meuron

Imagem: Estádio Nacional de Pequim

O projeto do Estádio de Pequim, por sua vez, tem a forma inspirada em um ninho de pássaros, com um emaranhado de aço e ferro que se assemelham aos finos galhos entrelaçados de um ninho natural.

Desenvolvido em 2008 para os Jogos Olímpicos de Verão, a estética do projeto difere muito das estruturas tradicionais e históricas presentes na China.

Porém, o Estádio Nacional não se resume à estética. A lógica dos metais emaranhados é trazer estabilidade e resistência a terremotos e tremores, tão comuns na região em que se insere.

Estes exemplos, nacionais e internacionais, comprovam a eficiência da aplicação biomimética na arquitetura, bem como sua capacidade de inspirar projetos viáveis e sustentáveis.

Desde o equilíbrio térmico dos cupinzeiros africanos até a estabilidade dos ninhos de pássaros, a arquitetura se mostra não apenas uma condição artística e estética, mas sim uma solução para problemas reais atrelados à falta de responsabilidade ecológica.

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