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Publicado por Connectarch

Duração 6 MIN

Data de publicação 16/05/2023

Para desacelerar, é preciso desapegar

Por Michelle Prazeres *

Desacelerar não é ser devagar. É se perguntar quando a velocidade faz sentido e quando ela não faz, mas estamos correndo apenas porque estamos “no automático”. Por isso, costumo dizer que desacelerar é uma espécie de “botão da consciência” que acionamos quando estamos diante de uma situação que apresenta alguma urgência.

Para saber se é mesmo urgente, precisamos nos perguntar: faz sentido esta velocidade ou a pressa já está tão internalizada, que nem nos perguntamos mais se ela faz sentido naquela determinada ocasião?

Desacelerar é recobrar os sentidos. Sair do automático. Humanizar. Esta é a principal premissa do movimento slow, um movimento contracultural, que nasceu na Itália, na década de 1980 com o slow food, precursor dos demais movimentos de slow living.

Reação ao fast food, o slow food afirma que o alimento deve ser bom, limpo e justo. Esta tríade inspirou outros campos da vida, como o slow fashion, slow education, slow media, slow medicine estabelecidos sob o lema “o futuro será devagar, pequeno e local”.

Para desacelerar, precisamos primeiramente estar dispostos a entender que estamos todos submetidos à cultura da velocidade e, em seguida, começar a transformar essa realidade a partir de nós mesmos.

Parece abstrato, mas a cultura da velocidade está estabelecida em pequenas e grandiosas coisas do nosso cotidiano. Desde o hábito de acelerar áudios ou vídeos, passando pela forma que consumimos e produzimos lixo, até a nossa concepção de sucesso ou progresso. A aceleração é uma espécie de “motor” da vida contemporânea.

Então, não basta aderirmos a saídas individuais para “combatermos” a cultura da velocidade. Precisamos de transformações individuais, coletivas e sociais.

Para desacelerar, precisamos – em primeiro lugar – desapegar do que acreditamos que a velocidade nos trouxe. É comum associarmos a correria à prosperidade. Mas também associamos a prosperidade à possibilidade de consumir, de ter bens, de comprar coisas caras e desejadas.

Não há problema em “batalhar” para conseguir comprar um objeto “de desejo”. O problema é termos uma sociedade movida por isso.

Dois movimentos conectados ao slow nos ajudam a repensar nossas formas de consumo: o minimalismo e o essencialismo, ambos conectados à ideia de um consumo mais consciente. Não se propõe com isso o fim do consumo, mas sim o repensar da lógica do consumismo desenfreado.

A forma como o mercado organiza o consumo hoje em dia é uma das responsáveis por estarmos levando os recursos do planeta ao esgotamento em ritmo acelerado. Esta ideia está relacionada intimamente com o desperdício e a forma como cuidamos do que acreditamos ser lixo.

A aceleração caminha junto com uma ideia de desenvolvimento e uma noção de crescimento, ambas articuladas à ideia de progresso, por sua vez, conectada com a noção de inovação, especialmente a inovação tecnológica.

Estas “forças” atuam no mundo, mas também atuam em nossas mentes, nos convencendo de que precisamos de um determinado padrão de vida, de um determinado estilo, de uma determinada forma de trabalhar, viver e desfrutar.

Desacelerar é desapegar deste estilo de vida, seja no âmbito das ideias (questionando-se se tudo isso faz mesmo sentido ou se estamos apenas no automático) e na vida prática (consumindo menos, vivendo com o suficiente, buscando transformar as relações com pequenos gestos e criando ambientes mais humanos de convivência).

O primeiro passo para desapegar rumo ao desacelerar é se perguntar: isso é mesmo necessário ou estou no automático?

* Michelle Prazeres é jornalista e educadora, fundadora do DesaceleraSP.

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