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Publicado por Connectarch

Duração 10 MIN

Data de publicação 10/11/2022

Museus para além da história

Muito além da história, marcas centenárias perpetuam sua trajetória sob a vanguarda de projetos arquitetônicos

Por Jucelini Vilela

Os espaços de Museu são, por definição, instrumentos de preservação da memória, da cultura e uma ‘ferramenta’ que deve ser utilizada para a manutenção e preservação do patrimônio, seja esse material ou imaterial, identitário, da diversidade cultural e da história. Nesse sentido, um museu pode ser, ainda, um espaço para a celebração e perpetuação de marcas icônicas cujo valor estimativo se faz incalculável por seus admiradores. Local de aprendizado, museus mantêm fatos e acontecimentos vivos e criam uma linha do tempo de cidades e países. Museus contam histórias da natureza, da tecnologia, da ciência. Algumas marcas de mobiliário e até utensílios do dia a dia, reconhecidos por sua beleza, qualidade e funcionalidade, já asseguraram seu legado, e o sucesso de suas histórias pode ser conferido em espaços ambiciosos, em sua maioria, inseridas em uma arquitetura espetacular.

Fica em Hamburgo, na Alemanha, o mais novo museu que celebra a escrita de uma das marcas mais desejadas quando o assunto é caneta: a Montblanc. Inaugurada recentemente, em maio, a Montblanc Haus como foi batizada, traz a história desde sua fundação em 1906 até os dias de hoje. Além dos instrumentos de escrita, a marca, que é também reconhecida mundialmente por seus artigos em couro, acessórios e relógios, revelou ao mundo, por meio de seu museu, a diligência do trabalho de seus mestres artesãos. Impecáveis em seus acabamentos e com qualidade superior, as canetas Montblanc são ‘objeto de desejo’ e testemunhas da história, passando pelas mãos de CEOs ao firmarem grandes contratos até presidentes que assinaram o termo de posse de seus novos governos.

De arquitetura imponente e impressionante fachada que remete à uma das embalagens históricas das famigeradas canetas-tinteiro da marca, o projeto de arquitetura da Montblanc Haus traz a assinatura do Nieto Sobejano Arquitectos. Divididos em seus 3.600 metros quadrados, estão, entre outros como café e boutique, o espaço de exposição permanente que conta com manuscritos originais de laureados com o Prêmio Nobel, autógrafos dos ‘imortais’ Frida Kahlo, Albert Einstein, Ernest Hemingway e até do contemporâneo ator Jackie Chan. Há, ainda, o espaço de exposições temporárias que traz diferentes mostras duas vezes ao ano. Como um ambiente de celebração à escrita e seu compromisso com as letras, a casa convida os visitantes a experienciar seus produtos usando as canetas para escrever e enviar cartões-postais para o mundo e prevê ofertar aulas a jovens e crianças desfavorecidas a fim de que usem a criatividade voltada para a escrita.

A celebrada arquitetura de Frank Gehry, 93, conhecido por suas formas ousadas e uso de materiais incomuns, abriga, em Paris, a Fundação Louis Vuitton. Inaugurado em outubro de 2014, o local funciona como um museu de arte e centro cultural. Mas, ao contrário do que se possa imaginar, o local não exibe a história do vestuário criado pelo estilista Louis Vuitton, apenas traz seu nome enquanto ícone do luxo e da sofisticação de uma das marcas comandadas pelo grupo LVMH, à frente do empreendimento. Localizado no parque parisiense Bois de Boulogne, o edifício de Gehry, um dos mestres do desconstrutivismo, é inspirado nas velas de um barco num esplendoroso mix entre formas orgânicas e futuristas, marcado pela transparência e possui 4 mil metros quadrados divididos em dois andares e onze galerias, nas quais podem acontecer diferentes mostras simultaneamente.

Foto: Leonhard Niederwimmer
Foto: GildAix

Para o empresário francês, Bernard Arnault, presidente e diretor geral do grupo LVMH, um endereço em Paris dedicado à cultura e à arte. "Um novo espaço que abre o diálogo com um público amplo e oferece aos artistas e intelectuais uma plataforma de debate e reflexão." E os números impressionam. Para essa construção, foram necessárias 15 mil toneladas de aço e 110 toneladas de concreto. Nas palavras do arquiteto, “como o mundo está em constante mudança, queríamos projetar um edifício que evolua com o tempo e a luz para criar uma sensação de transitoriedade e mudança contínua.” Um processo de design especial e arrojado. "Queríamos oferecer a Paris um lugar excepcional para a arte e a cultura e apostamos na audácia e na emoção confiando a Frank Gehry a construção de um edifício emblemático do século XXI”, conta Bernard.

Outra importante “haus”, a Vitra, também localizada na Alemanha, mas muito próxima à tríplice fronteira entre Suíça, Alemanha e França, reúne edifícios de produção, museus, ícones arquitetônicos e inspiração para casa em um conjunto único de arquitetura contemporânea. Trata-se de um campus com 240 mil metros quadrados e edifícios que trazem assinaturas de diversos arquitetos, entre os quais Zaha Hadid, Tadao Ando, Herzog & Meuron, Thomas Schütte, Renzo Piano, Frank Gehry e tantos outros. O projeto faz parte da proposta de reconstrução do parque fabril após um grande incêndio, em 1981, que destruiu o antigo complexo. Desse modo, Rolf Fehlbaum, presidente emérito e membro ativo do conselho de administração da Vitra, selecionou alguns arquitetos – importante destacar que quase todos premiados com o Pritzker – de várias partes do mundo para conceber o novo espaço.

Foto: Thomas Dix
Foto: Julien Lanoo
Foto: Julien Lanoo

Vitra Haus possui, entre outros, edifícios que abrigam linhas de produção, lojas, salas de exposição e um museu, esse sob a assinatura de Frank Gehry – mais uma vez ele –, com um acervo considerado como a maior coleção particular de objetos e móveis de design do mundo, superando, inclusive, o MoMA de Nova York. Cerca de seis mil peças, entre uma cadeira de balanço de autoria desconhecida até o melhor do que já foi produzido em 60 anos de design internacional, podem ser vistas ali. Se o assunto é design de qualidade, brasileiros também deixaram sua marca por lá. A cadeira Favela e a Melissa dos Irmãos Campana têm lugar garantido na coleção. E, lição aprendida, quase uma década depois do incêndio, formas conceituais que conectam paisagem e arquitetura marcam os traços de Zaha Hadid (1950 - 2016), no projeto arquitetônico da estação do corpo de bombeiros no campus, criado a fim de evitar quaisquer intercorrências futuras.

Hadid Fire Station_master - foto: Thomas Dix

E o que seria do futuro se a gente não olhasse para o passado e busca-se hoje formas inovadoras de aprender e preservar aquilo que importa?

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