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Publicado por Connectarch

Duração 9 MIN

Data de publicação 13/10/2022

Museu do Ipiranga, arqueologia fundamental para os brasileiros

A reabertura do Museu, resgata um capítulo fundamental na construção do que somos hoje como nação.

Por Jucelini Vilela

O Bicentenário da Independência do Brasil, comemorado recentemente, em 7 de setembro de 2022, data oficial para a celebração da independência, aconteceu às margens do riacho do Ipiranga com o famoso “Grito do Ipiranga”, como ficou conhecido o brado “Independência ou Morte” de D.Pedro I. E, foi nesse local, anos mais tarde em 1885, que começa a ser construído como forma de ‘perpetuar’ a história e homenagear o ato, o edifício-monumento que representaria tal acontecimento: o Museu do Ipiranga. Nascido como Museu de História Natural sob a assinatura do arquiteto italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi, o monumento é o mais antigo museu público da cidade e faz parte do conjunto arquitetônico do Parque da Independência.

Foto: Natalia Cesar
Foto: Natalia Cesar
Foto: Natalia Cesar

Inaugurado oficialmente em 7 de setembro de 1895, é, desde 1963, parte da Universidade de São Paulo e tido como uma instituição científica, educacional e cultural e com grande atuação no campo da História. Em seu acervo, mais de 125 mil itens como esculturas, quadros, moedas, medalhas, peças de mobiliário e obras de arte de importância histórica, e com relação à independência, assim como ao período histórico correspondente, entre os quais o famoso quadro do paraibano Pedro Américo “Independência ou Morte”, de 1888. Com base em um palácio renascentista que segue o estilo europeu do século 19, enfatizando principalmente a beleza das construções francesas da época, o edifício é considerado como a primeira construção de tijolos da capital. São 123 metros de comprimento e 16 de profundidade, repletos de ornamentos e elementos decorativos e, entre os destaques, a belíssima escadaria que representa o Rio Tietê, ponto de partida dos Bandeirantes que desbravaram o país.

Foto: Natalia Cesar
Foto: Heloisa Bortz
Foto: Heloisa Bortz

Restauro, Resgate, Ressignificado

Fechado há nove anos para o restauro – desde 2013 – o museu passou por um grande processo de reforma e foi ampliado em aproximadamente seis mil metros quadrados onde foi implementada uma nova entrada ligada diretamente com o parque. Área de acolhimento, café, loja, auditório e uma sala que visa receber exposições temporárias, agora fazem parte do complexo do museu que prevê visitação anual acima de 900 mil visitantes. Ainda falando em restauro, a tela “Independência ou Morte” também recebeu cuidados, entre os quais, reparos aos danos causados pela ação do tempo e limpeza para retirar a sujeira acumulada, devolvendo à tela as cores originais. A obra, que é uma cena idealizada pelo artista, já que 66 anos depois não tinha mais ninguém que pudesse fidelizar o que de fato aconteceu ali, possui 31 metros quadrados e foi uma encomenda da família Imperial para registrar e ressaltar o poder na monarquia, do recém-instaurado império. A tela traz a imagem de D.Pedro I montado em um cavalo – hoje sabe-se que na realidade era uma mula –, empunhando uma espada no momento em que proferia o Grito da Independência.

Outro ponto importante é o restauro do painel Independência ou Morte – referência ao quadro de Pedro Américo – que compõe o Monumento à Independência do Brasil, também conhecido como Monumento do Ipiranga. Localizado em frente ao museu, ficou a cargo do escultor brasileiro Israel Kislansky, que se associou ao restaurador francês Antonie Amarger para a realização deste trabalho, pois segundo Israel, essa associação foi imprescindível, uma vez que não existe uma tradição no Brasil no que se refere aos cuidados em monumentos fundidos em metal. “Como é algo em que os anos vão passando e não tem sido feito uma política de cuidados a obras do século 19 e 20, período clássico, acadêmico e mesmo dos primeiros modernistas, não se desenvolveu no Brasil especialistas nessa área”, ressalta. Surge daí a necessidade em trazer alguém especialista em restauro de obras fundidas em metal e o nome de Antonie Amarger vem ao encontro dessa lacuna. “Antonie é o restaurador responsável pelas esculturas do Jardim de Versailles e foi quem restaurou os dois ‘pensadores’ do museu Rodin e, também, todas as obras em bronze do museu Picasso de Paris”, esclarece Kislansky.

Reprodução Instagram @israel.kislansky

Para o trabalho no Brasil foi montada uma equipe composta por pessoas de diferentes lugares do mundo, entre argentinos, uma marroquina e outros brasileiros. “Foi um trabalho longo, pois teve a recuperação não só da superfície como da parte interna e estrutural do Monumento que já era bastante antigo e estava, igualmente, bastante danificado”, conta Kislansky. O time franco-brasileiro, explica Israel, teve como um dos maiores desafios, restaurar a parte estrutural já que tiveram que retirar restaurações antigas que eram de massa plástica e refazê-las em metal. “Porém, todo o trabalho foi bastante delicado”, pontua o escultor que acentua a importância e a honra em ter participado desse momento da história. “Estar com uma equipe tão especializada e ter acesso a tantas informações foi engrandecedor, além de muito emocionante estar tão perto e poder transformar um monumento tão importante. É quase uma arqueologia! Fora a questão histórica, é também uma obra de arte maravilhosa. E, ainda, tem o fato de participar de uma ação que está na cidade, em que as pessoas convivem e usufruem. Logo depois que ficou pronto, percebi o quanto as pessoas ficavam impressionadas e o quanto gostavam e curtiam. Essa reação e essa participação com algo que é da cidade, é muito gratificante. Só posso agradecer por ter participado”, celebra e finaliza Israel Kislansky.

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