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Publicado por Connectarch

Duração 13 MIN

Data de publicação 15/06/2023

Lar emocional

De paredes que mudam de cor conforme o humor das pessoas até casas que se alteram fisicamente para agregar um novo perfil familiar já são realidade nesta década

A palavra ‘lar’ como a conhecemos tem origem na palavra ‘lareira’ onde as pessoas se reuniam para juntas, se manterem aquecidas. Um ato que fortalecia a união, o afeto e o amor, e que nos trouxe até aqui com o entendimento de que ‘lar’ é o local onde vivemos felizes, onde descansamos e encontramos a paz. Tem sido assim há muito tempo, mas também um desafio diário manter esse conceito em meio ao estresse e metamorfoses do mundo atual, principalmente após dois anos turbulentos, e à tanta tecnologia, que vão de robôs que interagem até os smartphones que nos acompanham ao longo de um dia inteiro. Manter a paz e a tranquilidade dentro de casa para que não deixe de ser o tão almejado lar é condição para muitas pessoas e a boa notícia é que muito tem sido feito para transformar o excesso de tecnologia ao redor em um aliado ao bem-estar.

Foto: Divulgação

Um estudo da IKEA mostra o impacto que as casas têm na manutenção do bem-estar. A análise que resultou no relatório Life at Home 2021 apresenta como a casa é ponto de partida em uma vida equilibrada e para o bem-estar mental. Nela, 27% dos pesquisados dizem que sua saúde mental sofreu durante os 12 meses mais desafiadores daquele ano e como o lar e o bem-estar mental tornaram-se altamente conectados. Pensando no futuro, a grande questão, talvez seja como as casas, para se manterem como lares, oferecendo conforto e segurança, inclusive emocional, serão impactadas com o advento de tecnologias de ponta e com a Inteligência Artificial sendo empregada em aparelhos e em todos os espaços da residência.

Foto: Divulgação

Para a especialista em tendências e Executive Client Services da WGSN, Hanne Lima, a tecnologia é, de fato, uma aliada na construção dos lares para o futuro e para que continuem sendo saudáveis para seus moradores. “Temos alguns direcionamentos bem interessantes. Primeiro, vamos ver a tecnologia se integrar de maneira bem mais fluida dentro das casas, com aparelhos que usam materiais como madeira e cores calmantes para combinar com os interiores e a decoração de maneira geral, se tornando até mais amigável, deixando um pouco de lado o preto, cinza e chrome super high tech que podia assustar alguns usuários.” Hanne conta sobre ter acompanhado durante a última CES - Consumer Electronics Show, em Las Vegas, EUA, – a maior feira mundial para tecnologia de consumo e a maior feira anual da América – uma solução que vai intensificar ainda mais a integração entre os objetos e a casa, acelerando muito mais o uso da internet das coisas no dia a dia. “O Matter é uma padronização para os aparelhos interconectados das nossas casas, que promove a interoperabilidade entre esses aparelhos. Isso significa que não importa se sua TV é Sony e sua geladeira é LG, elas vão conseguir “conversar” entre si e criar um hub realmente interligado à sua casa. Em outras palavras, vamos ter cada vez mais uma experiência sem barreiras e superfluida nas casas inteligentes.”

Foto: zhu difeng

Casa mutável

Flexibilidade e adaptabilidade são palavras de ordem nesse contexto. Recentemente, o Ministério da Habitação, Comunidades e Casa do Governo Local do Reino Unido, lançou um desafio para incentivar projetos residenciais que apresentassem variedades aos desafios que serão realidade na sociedade futuramente. Entre os vencedores, Connector Housing do Openstudio trouxe um sistema flexível e adaptável que permite múltiplas configurações ao longo do tempo. De acordo com as mudanças familiares, os layouts internos também podem mudar, se adaptando às reais necessidades. Isso vale, inclusive, para áreas que são normalmente estáticas, como a cozinha, por exemplo. Pensada pela dinamarquesa Possi, a cozinha poderá ser mais flexível, podendo se encaixar em outros espaços, já que possui uma estrutura mais simples. Além disso, a proposta contempla desmontar, mover e ser realocada de forma mais fácil.

Sebastian van Damme | Orange Architects

Outro exemplo é uma cabine pré-fabricada pela Orange Architects nos Países Baixos que conta com uma área de convivência fluida e aberta, mas que pode se transformar em espaços privados à noite, por exemplo. Com design adaptativo, a cabine pode ser reconfigurada facilmente fechando painéis de madeira instalados no corredor ou girando-as 90 graus. Hanne comenta: “O design adaptativo, banheiros inteligentes que promovem o bem-estar, tecnologia para o sono e voltada para a saúde do usuário e dos pets, eletrodomésticos para os espaços externos e tecnologias focadas em otimizar o uso de recursos como energia e água são outros direcionamentos que estamos observando na WGSN.”

Foto: AkzoNobel

E não para por aí. A empresa de tintas AkzoNobel's lançou a Color-Changing MoodPaint que muda a cor do ambiente de acordo com o ‘humor’ da sala. Ela varia conforme a quantidade de pessoas no local, hora do dia ou do tipo de atividade que estiver sendo exercida naquele momento. Com uso da biomimética e inspirados na natureza, os cientistas da empresa holandesa chegaram ao código MoodPaint, uma fórmula exclusiva na qual cristais líquidos termotrópicos modificados respondem aos feromônios emitidos pelas pessoas. O que acontece é que conforme há uma movimentação dos cristais, esses absorvem e refletem diferentes comprimentos de onda de luz. O resultado é uma tinta que muda de cor em tempo real. Desse modo, se o clima está triste, a cor se altera a fim de mudar o ânimo e o mesmo acontece quando há uma atmosfera de tédio. O ambiente terá sua cor alterada com o intuito de aumentar a criatividade e gerar mais energia nas pessoas que ali estiverem.

Lar do futuro

O mundo está em constante evolução e isso engloba a casa como mais um ponto de mudança. Pensando no futuro, nas alterações de perfis familiares e mudanças climáticas, as casas vêm – e continuarão – sofrendo mutações a fim de oferecer novos estilos de vida. “Acredito que o primeiro ponto seria entender que o conceito de lar evolui, vemos o lugar muito mais como um sentimento do que um local físico propriamente dito. Assim, vamos ver as casas serem cada vez mais mutáveis ou até pensadas para um estilo de vida mais nômade. O estilo pessoal na decoração também cresce com as casas se tornando uma extensão da identificação pessoal do dono, trazendo também a emoção como um aspecto tão importante quanto a funcionalidade, sustentabilidade, resiliência, inclusão e adaptabilidade, que também são palavras-chave para as previsões de futuro da WGSN”, explica a especialista em tendências.

Foto: Divulgação

Desse modo, o termo lar emocional se faz real e, mais que isso, atual no conceito lar do futuro. “A casa se tornou o centro do universo das pessoas nesta década de 2020, e se transformou em santuário. O lar emocional seria essa propriedade dos espaços de preencher nossas necessidades emocionais, sendo uma ferramenta de autocuidado. O design para o bem-estar, com o design biofílico nos interiores fazendo parte disso, seria um bom exemplo”, pontua Hanne. É preciso, ainda pensando nas mudanças pelas quais as residências estão passando, falar sobre os recursos usados diariamente, e otimizar também faz parte. Segundo Hanne, “o uso de IA (inteligência artificial) em aparelhos que ajudam no melhor uso de água e energia elétrica dentro das casas, assim como na otimização dos alimentos e em soluções para diminuir o desperdício nas cozinhas, deixa a casa muito mais eficiente, gasta menos recurso e consequentemente menos dinheiro, o que é uma solução tanto quando pensamos em sustentabilidade, quanto na crise do custo de vida.”

Foto: Divulgação

E, para finalizar, ela ressalta: “Estamos acompanhando aparelhos para casa desde lâmpadas à chuveiros e banheiras que acompanham o humor do usuário e criam um ambiente muito voltado para a manutenção da saúde mental, com cromoterapia, aromaterapia, entre outros tipos de apoio à regulação de humor que podem ser adicionados nos interiores. A tecnologia de maneira geral se volta muito para isso no momento e o uso de IA e dados emocionais do usuário resultam em uma casa que entende quem a está habitando e quais as necessidades dessa pessoa, e como oferecer a ela momentos de relaxamento.”