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Publicado por Connectarch

Duração 12 MIN

Data de publicação 04/05/2023

Arquitetura que se adequa

Projetos mundo afora provam que não há barreiras intransponíveis quando tecnologia e criatividade estão unidas com o mesmo propósito

Inóspito, mas não inabitável. Improváveis de moradia, alguns lugares no mundo mostram que é uma inverdade acreditar na impossibilidade de criar e ofertar ambientes nos lugares mais impensáveis. Não há obstáculos para a uma boa e inteligente arquitetura quando os limites, mesmo quando se impõem grandes, existem. Do gelo ao deserto, da floresta ao mar, a arquitetura é capaz de criar espaços onde a incredulidade se faz presente no imaginário humano, mas que se acabam com a criação de projetos críveis, e incríveis.

E tem, ainda, aqueles lugares onde a natureza, vez ou outra, se faz presente com um certo tom de fúria, causando terremotos, tsunamis, temperaturas altíssimas ou, ao contrário, extremamente baixas, chuvas torrenciais, entre outros fenômenos, mas lugares onde a arquitetura é pensada para proteger pessoas e ‘sobreviver’ a tantas intempéries. Aqui, selecionamos cinco obras assim, cuja arquitetura surpreende não só por sua beleza ou criatividade, mas por estarem adequadas à realidade de lugares onde jamais se pensaria em algum tipo construção que abrigasse pessoas com conforto e segurança.

Chile

Um dos lugares no mundo que muito sofre com terremotos – o país está localizado em uma área onde acontece o choque direto entre duas placas tectônicas, o que gera grande instabilidade geológica causando enormes tremores quando essas se movem – o Chile aprendeu a conviver com o mau humor das terras ao longo dos anos. Claro que não foi fácil, mas o último grande terremoto em 2010 que destruiu casas e edifícios em boa parte do país, ensinou aos chilenos a importância de uma arquitetura pensada para suportar os intensos abalos sísmicos.

Não só aprenderam como foram além ao construírem, em 2013, A Gran Torre Santiago com seus 300 metros de altura – vale um destaque aqui: o edifício é tão alto que sua sombra chega a medir dois quilômetros. Assinado pelo escritório Pelli Clarke & Partners em parceria com o Alemparte, Barreda & Associates, A Gran Torre, localizada no centro da capital chilena, Santiago, possui classificação LEED-Gold e traz recursos inovadores de sustentabilidade que incluem aço reciclado, sistema de resfriamento natural utilizando a água do Canal San Carlos e vidros que revestem o edifício com alto desempenho, pois permitem vistas desobstruídas 360º com sombreamento solar inteligente. E, claro, possui um eficiente sistema estrutural, de última geração, que fornece proteção contra os temíveis terremotos.

Gran Torre Santiago - Site: Pelli Clarke & Partners

Japão

Localizado no Círculo de Fogo do Pacífico, com vulcões e placas tectônicas, outro país que sofre com terremotos como o Chile, o Japão investiu bilhões de dólares ao longo dos anos em sua arquitetura a fim de preservar as cidades e as vidas na ocorrência de tremores de terra que atingem picos intensos na escala Ritcher – escala de medição que afere a intensidade dos tremores. Um exemplo é o mecanismo de molas instalados nos edifícios que proporciona estabilidade e ajudou ao país ser considerado um dos mais bem preparados para terremotos. O fato é que nas construções, de edifícios principalmente, já que são sempre os maiores afetados, o emprego de novas tecnologias em infraestrutura é uma condição para evitar desastres e preservar vidas.

Amortecedores eletrônicos – que podem ser controlados à distância – até mecanismos ‘mais simples’, como molas que funcionam como as suspensões de veículos, os edifícios japoneses recebem, ainda, um material especial que amortece as junções entre as colunas, lajes e estruturas que compõem cada andar. Como estão sujeitos a movimentos em qualquer direção quando ocorrem os abalos, essa tecnologia permite que essa energia se dissipe entre as estruturas, evitando esmagamentos nos andares intermediários e criando mais estabilidade ao edifício como um todo.

Brasil

Longe de eventos naturais agressivos como os já citados, um bom exemplo de arquitetura que se adequa à realidade local são as moradias indígenas na Amazônia. A mais comum é a Oca, mas há também diferentes tipos e que atendem às diversas culturas indígenas como a Maloca, a Tapera, a Taba, a Opy, entre muitas outras, cada qual com sua peculiar arquitetura. Geralmente construídas com estruturas em madeira, muitas vezes conectadas umas às outras por um sistema de encaixe, as casas se utilizam de folhas, fibras e cipós para paredes e telhados e são dispostas em forma ortogonal a fim de criar uma grande praça central onde são realizadas festas, cerimônias, atividades diárias e rituais sagrados.

Normalmente com espaços generosos que podem ter até 200 metros quadrados, a arquitetura vernacular é movida pela necessidade da vida cotidiana dos povos. Para isso, a combinação com o pé-direito alto e a forma aerodinâmica que ajuda a propiciar conforto térmico, há no desenvolvimento dessas construções grandes beirais, normalmente orientados em relação à trajetória do sol para que haja maior proteção acerca da incidência de luz e igualmente sobre a incidência da chuva. Em resumo: para os povos indígenas respeitar as condições naturais locais e seu meio são o ponto de partida para se estabelecer em meio à floresta sem causar danos ou impactos que prejudiquem a natureza.  

Aldeia Indígena Brasileira - Divulgação: Marina Pereira Novo

Canadá

Fica em Vancouver, no Canadá, a casa flat-pack (pronta para morar). Localizada em uma região selvagem e de difícil acesso, a pequena casa de 18,5' x 10'  tem a assinatura da The Backcountry Hut Company e foi planejada com base no espírito da cultura canadense de se estar ao ar livre. Trata-se de uma estrutura modular que pode abrigar uma família ou um pequeno grupo. A área térrea, um convite à contemplação a natureza, estimula a conexão entre a vida dentro e fora de casa, enquanto a parte superior acomoda ambientes para dormir.

Pré-fabricada, a pequena casa pode ser montada em até 24 horas e seu eficiente sistema de revestimento que é feito em metal, impede a entrada dos fortes ventos canadenses e a torna resistente à diferentes tipos de climas. Vale ressaltar ainda que toda a madeira usada em sua construção possui certificação pelo Conselho de Manejo Florestal FSC e itens da parte interna foram produzidos com 100% de materiais recicláveis.

Flat Pack - Site: The Backcountry Hut Company

Noruega

Localizada na ilha de Fleinvaer, na Noruega, uma área no extremo norte do país e no coração do Círculo Polar Ártico, o refúgio Ártico ou Fordypningsrommet Fleinvaer como é chamado pelos locais, é um conjunto que reúne casas e em um dos lugares mais inóspitos do planeta em que há condições climáticas extremas durante o ano todo. Assinado pelos arquitetos da TYIN Tegnestue Architects, o refúgio é cercado pelo arquipélago de Lofoten e fica à beira-mar, o que aumentou ainda mais o desafio logístico dessa construção que, para proteger os moradores, foi feita sobre uma coluna de aço a fim de não ter contato com o congelado solo o que favorece, inclusive, a remoção dos edifícios sem causar danos ao ambiente, se necessário.

Como o local é uma área de nidificação de gaivotas e aves marinhas, tudo foi planejado de modo a causar o mínimo impacto e, por isso, as edificações possuem pequenos volumes. Além disso, o interior das casas é feito a partir de madeira tropical sustentável, traz detalhes minimalistas e toques escandinavos que fazem destas quatro casas privativas, cinco áreas sociais, uma cantina e uma sauna comunitária, um verdadeiro oásis em meio ao gelo.

Fordypningsrommet Fleinvaer

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