
Publicado por Connectarch
Duração 12 MIN
Data de publicação 12/01/2023
A riqueza cultural da arte em azulejos
Os azulejos saem do universo decorativo e ganham status de matéria-prima nas artes plásticas
“O limite da arte é a fronteira da alma com a sensibilidade do coração...” A frase perfeita é do muralista brasileiro Marcos Andruchak. De fato, não há limites para a arte. As expressões artísticas, sejam elas acerca da dança, pintura, escultura, música, cinema e tantas outras, refletem momentos da sociedade, revelam anseios, marcam épocas e, mais que isso, têm o poder de perpetuar a história.
Entre tantos tipos de expressões artísticas, um exemplo é a arte em azulejaria. Este tipo de arte, bastante específica, de grande tradição, desde os primórdios da arte brasileira, chegou nos navios portugueses, e ganhou cada vez mais relevância com o passar dos anos. “A palavra em si, azulejo, tem origem no árabe azzelij (ou al zuleycha, al zuléija, al zulaiju, al zulaco) que significa pequena pedra polida, e era usada para designar o mosaico bizantino” (fonte: Wikipedia*). Esta técnica já era observada no antigo Egito e consiste em imprimir imagens, abstratas ou não, em peças de cerâmica, geralmente quadradas e decoradas com esmaltes coloridos.
A história destas peças tão icônicas vem de além-mar e é datada de séculos. Os azulejos que, ainda hoje, revestem fachadas e interiores de casas, comércios e igrejas, têm raízes na Península Ibérica, e datam do século XVI. Inicialmente decorados com motivos orientais, seguindo a tradição de onde foram primeiramente inventados, posteriormente passando a ter o tradicional tom de azul português, e finalmente evoluindo para motivos geométricos e ousados, como é o caso dos famosos painéis do pintor Athos Bulcão (1918 – 2008).

Athos, começou seu trabalho com azulejaria em 1955 para o hospital da Lagoa, no Rio de Janeiro. Semente plantada, centenas de frutos nasceram ao longo dos anos que se seguiram, com campo fértil onde quer que o concreto de algum projeto arquitetônico permitisse a implementação de seus azulejos cheios de grafismos com cores e formas geométricas. Apesar de Carioca, teve a maioria de sua produção artística em Brasília, cidade onde morou muitos anos. Ex-estudante de medicina, abandonou o curso para dedicar-se à pintura. Foi assistente de Candido Portinari, grande mestre e artista modernista brasileiro, e trabalhou na construção do painel de São Francisco de Assis, na Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte. Posteriormente, passou a colaborar em projetos do mestre Oscar Niemeyer, entre os quais a Igreja Nossa Senhora de Fátima, conhecida como “Igrejinha” e o Palácio do Itamaraty, ambos em Brasília. Vale ressaltar que a cidade de São Paulo também possui diversas obras icônicas de Bulcão, entre as quais, os relevos que fez para o Memorial da América Latina.



Bulcão, em sua linguagem disruptiva, agregou inovadores padrões geométricos às tradicionais peças milenares e traçou, através de seus trabalhos, uma relação íntima entre suas obras e as cidades, principalmente explorando a relação dos edifícios com os pedestres. Esta nova estética e uso dos revestimentos foi algo extremamente inovador para sua época, quebrando o paradigma cultural existente, antes, fruto de uma tradição de revestir de azul os ricos edifícios da burguesia, criando distinção social.
Para preservar sua memória e, igualmente, seus trabalhos, foi criada em 1992, a Fundação Athos Bulcão, uma entidade de direito privado e sem fins lucrativos. Através da fundação, é possível adquirir uma obra do artista, conta a secretária executiva, Valéria Cabral: “No documento de doação do acervo feito pelo artista para a criação da instituição, ele declara que só a Fundação pode reproduzir e comercializar sua obra, em qualquer suporte, desde que ela não seja descaracterizada. Isso nos permite reproduzir os padrões das obras públicas em painéis para o interior de residências.
Falando de atualidade, os azulejos continuam sendo vastamente explorados na arte e na arquitetura nacional, sendo utilizados largamente por diversos arquitetos brasileiros, inclusive pelo grupo, chamado “Coletivo MUDA”, formado pelos designers Bruna Vieira e João Tolentino, e pelos arquitetos Diego Uribbe, Duke Capellão e Rodrigo Kalache, os quais tem feito arte de reconhecida qualidade, no território nacional.
O grupo, fundado em 2010, tem como objetivo experimentar a linguagem da azulejaria em diferentes lugares, expandindo limites e ousando desafiar-nos a mudar nossa forma de enxergar o território urbano e alterar a relação do povo com as ruas, através da apropriação dos espaços públicos, e tudo isto, através do desenho.
Com obras em lugares como o Arpoador no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Santa Catarina contam com painéis do Coletivo que também já rompeu as fronteiras e deixou sua assinatura em Nova Iorque, Buenos Aires, Havana, Florença, Roma, bem como as cidades portuguesas de Lisboa, Sintra, Porto e Guimarães. Assim, o grupo segue interferindo de um jeito bom no cotidiano dos lugares e de seus moradores ou visitantes, com o intuito de dar relevância a espaços que antes passavam despercebidos, oferecendo uma experiência lúdica. “Nossas intervenções urbanas em geral são independentes e espontâneas, não temos qualquer tipo de ajuda. Antigamente pintávamos nossos painéis de azulejo com tinta spray, curtimos ver a ação do tempo e das pessoas com o painel, e a história se revelar sem nossa interferência”, revela Kalache e explica que quando criam painéis de azulejo, “fazemos na metodologia tradicional, pintando com pigmento mineral e queimando em forno de cerâmica, tornando a manutenção baixíssima.”



Olhando um pouquinho para o Brasil, de maneira geral, podemos ver a presença desta tradição da azulejaria fora do eixo Rio/SP, em cidades como São Luís, Capital do Maranhão que preserva o maior acervo urbano de azulejos que compreende os séculos XVIII e XIX em toda a América Latina, onde podemos encontrar um reduto dessa fabulosa arte em seu Centro Histórico, o qual faz parte do patrimônio cultural e arquitetônico da cidade, tendo sido tombado pela UNESCO desde 1997. Na época do brasil colônia, eram mandados os melhores exemplares da azulejaria como, por exemplo, os azulejos de padrão azul que forram o interior da igreja de Nossa Senhora dos Prazeres nos Montes Guararapes, em Pernambuco (SIMÕES, 1980).
Além disso, encontramos em Salvador o maior acervo de azulejaria lusitana, fora de Portugal. A exemplo disto, no complexo da igreja da Ordem Terceira de São Francisco está instalado um painel que representa paisagens da cidade de Lisboa, com seus arcos, datadas de antes do terremoto de 1755.
A azulejaria também foi amplamente trabalhada no Pará, em Manaus, Pernambuco, entre outras. No Brasil, a arte antes aplicada apenas nas casas dos mais ricos e em comércios, se popularizou no decorrer do tempo, devido, também, à longevidade e funcionalidade que oferece, uma vez que o material, resistente a intempéries, ameniza o calor nas partes internas, se tornando um excelente isolante térmico. Assim, a história dos azulejos artísticos segue sendo construída e, mesmo tantos anos depois, ainda são admirados e utilizados para compor novos espaços, seja para contemplação da arte, seja para proteger ou mesmo pela estética sem igual que criam onde quer que sejam instalados.
*Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Azulejo#:~:text=A%20palavra%20em%20si%2C%20azulejo,mosaico%20bizantino%20do%20Pr%C3%B3ximo%20Oriente.
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